quinta-feira, janeiro 25, 2007

CENÁRIO DE POBREZA

Desigualdade social aflora como tema símbolo do Fórum em Nairobi.
Apesar do Quênia não ser um dos países mais pobres da África, revela-se como cenário propício e exemplar para a discussão aprofundada sobre a desigualdade social e a concentração de renda: 57% da população de Nairobi sobrevive com menos de US$ 1 por dia.

Mauricio Hashizume - Carta Maior

NAIROBI - A própria cidade-sede da sétima edição do Fórum Social Mundial proporciona uma oportunidade única para que a discussão sobre a desigualdade social e a concentração de renda seja aprofundada. Levantamento recente realizado a partir de fotografias aéreas revelou que mais da metade da população da capital queniana mora em cerca de 18% da área da cidade. De acordo com dados de 1999, os moradores do pacato e suntuoso bairro de Karen, localizado em área nobre, dividem o quilômetro quadrado por 360 habitantes, enquanto 800 mil pessoas vivem no mesmo espaço em Kibera, megafavela de onde partiu, neste sábado (20), a marcha de abertura do sétimo encontro internacional que adotou o seguinte slogan em 2007: “Lutas populares, alternativas populares". O Quênia definitivamente não é um dos países mais pobres da África, mas cerca de 57% da população de Nairobi sobrevive com menos de US$ 1 por dia.

"Muita gente não está participando do Fórum Social Mundial porque não tem KS$ 500 (shillings quenianos, cerca de US$ 7,00 ou pouco mais de R$ 15,00 ) para pagar a taxa de credenciamento", conta Julius Shiyorzo, líder comunitário da favela de Mukuru, na região industrial localizada nas proximidades de Kibera. "São poucos os que, como eu, conseguirão participar. E também não temos recursos para realizar reuniões comunitárias depois do evento para disseminar o conteúdo dos debates que aqui serão realizados". O militante de base migrou de uma cidade do interior do Quênia para procurar emprego na capital em 1990. Conseguiu sustentar-se durante muito tempo com a venda de cabeças e pés de galinhas, dispensados pelos consumidores de elite de Nairobi. O barraco que Shiyorzo utilizava para comercializar os produtos para os outros favelados, no entanto, foi subitamente demolido anos atrás e ele chegou a trabalhar como segurança particular para obter parca renda. Logo depois, decidiu assumir de vez o posto de líder comunitário do "assentamento humano" - como costuma chamar a "favela" para não aguçar o preconceito da minoria rica da cidade. "Quem mora na favela é chamado de cachorro e ladrão. O Fórum é um instrumento para entender melhor e praticar os direitos humanos de todos, indiscriminadamente. E um instrumento de conscientização tanto para pobres quanto para ricos".

Foi durante uma conferência do Fórum Urbano Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU) realizada em Nairobi em 2002 que a definição operacional de "favela" (slum em inglês) foi adotada oficialmente pela primeira vez. Quatro características físicas especificam esse tipo de área urbana: excesso de população, habitações pobres e informais, acesso inadequado à água e às condições sanitárias e insegurança de posse da moradia. Não por acaso, três países vizinhos do Quênia apresentam dados mais do que alarmantes em termos de favelização: na Etiópia, 99,4% da população urbana vive na favela; na Tanzânia, são 92,1%, e no Sudão, 85,7%. A reivindicação do direito a moradia é apontada por Oduor Ong’wen, membro do comitê organizador do primeiro FSM em terras africanas, como uma das principais pautas deste ano. "Queremos mostrar que o continente que mais sofre com as injustiças do mundo continua resistindo", disse Ong’wen, que estimou pelo menos a participação de representantes de mais de 43 países da África. Taoufik Ben Abdalla, outro membro do comitê, sustentou para o jornal Africa Flame (publicado durante os Fóruns Sociais Mundiais desde 2003) que apenas 50 dos 850 milhões de habitantes do continente africano são "cidadãos verdadeiros" com direitos básicos atendidos.

Na próxima terça-feira (23), durante as discussões do VII Fórum Social Mundial, 50 mil moradores de Nairobi que deixaram de pagar as suas contas nos últimos seis meses correm o risco de ficar sem água, noticiou o The Standard, na quinta-feira passada (18). Entrevistados pelo diário queniano, executivos da companhia privada responsável pelo serviço na cidade disseram que a empresa decidiu cortar o abastecimento para coibir reconexões ilegais. Segundo o jornal, os inadimplentes podem ainda perder o depósito obrigatório captado antecipadamente para que qualquer ligação seja feita. Também será cobrada uma taxa de reconexão de KS$ 3 mil (shillings quenianos), que equivale a US$ 50,00 para reconexões após o devido pagamento. Às reclamacões dos moradores de que existem muitas falhas no sistema de cobrança, a companhia responde dizendo que lançou uma campanha de distribuição de mais de 200 mil questionários sobre o atendimento e a qualidade do serviço prestado. Apenas 10 mil usuários responderam às perguntas.

No livro Planeta Favela, o professor Mike Davis, da Universidade de Irvine, na California (EUA), e editor da revista New Left Review, reproduz outra estatística impressionante publicada pelo Los Angeles Times: 57% de uma das favelas de Nairobi pertencem a políticos e funcionários públicos. Barracos de apenas 6 m² são comprados por cerca de US$ 160,00 e o valor pago é recuperado pelos donos das moradias precárias em poucos meses.

O jovem engenheiro queniano Adam Kipkemei, de 25 anos, um exemplo da minoria abonada que vive na capital queniana, não sabia muita coisa do Fórum Social Mundial quando foi abordado pela reportagem da Carta Maior. "Soube apenas que estavam sendo esperados 100 mil pessoas para o encontro". Kipkemei - que curiosamente é vizinho do corredor Robert Cheruiyot, que chegou em segundo lugar na São Silvestre do último dia 31 de dezembro de 2006, atrás apenas do brasileiro Marilson dos Santos - comprou ingressos de KS$ 1 mil (US$ 15,00) para assistir a um show com participação, entre outros, do cantor queniano Eric Wainaina e da sul-africana Yvonne Chaka Chaka (famosa por sua ardorosa campanha contra a malária), para levantar fundos para o VII FSM, realizado na noite da última sexta-feira (19), no Kenyatta International Conference Centre (KICC), no centro de Nairobi. "Não é tão difícil reduzir a pobreza no Quênia. Somos um país rico. Basta que o combate à corrupção seja levado a sério e jovens líderes políticos como o senador norte-americano Barack Obama (democrata eleito pelo Illinois que tem chances de ser o próximo candidato à presidência dos EUA nas próximas eleições) surjam no cenário nacional", sugeriu. A média de idade dos 30 milhões de habitantes do Quênia é de 18 anos e a expectativa de vida não chega aos 50 anos. "Os mais velhos já estão corrompidos e comprometidos", condena. Mesmo assim, o engenheiro diz que viaja por todo o país e ouve as pessoas defendendo a administração do atual presidente Mwai Kibaki, principalmente por causa dos avanços na questão da transparência.

Para o líder Julius Shiyorzo, Kibaki foi eleito em 2002 como candidato da oposição pelo National Raibow Coalition (Narc) com uma plataforma muito promissora como o compromisso de criação de 500 mil empregos por ano - derrotando as forças políticas tradicionais organizadas em torno do principal partido Kenya African National Union (Kanu), marcadas pelos casos de corrupção do ex-presidente Daniel Arap Moi que foi presidente de 1978 a 2002. "Ele cumpriu muito pouco do que prometeu", lamenta o morador da favela de Mukuru. Decepcionado com o atual presidente, que deve se candidatar à reeleição nas eleicões gerais que estão marcadas para dezembro deste ano, Shiyorzo critica especialmente o excesso de poder concentrado nas mãos do presidente (cuja foto se vê pendurada nas paredes por todas as partes). A Reforma Constitucional que mantinha grande parte do controle nas mãos do governo central proposta por Kibaki, freqüentemente acusado de cooptar políticos da oposição por meio do uso da máquina pública, foi recusada pela população em votação realizada em novembro de 2005.

"Meu voto e meu apoio para as próximas eleições estão condicionados a mudanças estruturais nas favelas. Não se avançou na regularização fundiária. Esse seria o primeiro passo para uma política que respeita os de baixo. Ninguém toca nisso", completa o líder comunitário. A professora Grace Mumbua, da escola primária de Waruku, em Kiangeni, assina embaixo. Ela levou um pequeno grupo de alunos - do total de 250 que estudam na sua cidade - até a marcha de abertura do VII FSM para "enviar a todos uma mensagem de paz". "A violência urbana está diretamente ligada ao isolamento das favelas. A educação de um modo geral no Quênia não é tão ruim, mas fica apenas na superfície do problema, pois não está inserida nas favelas. É preciso que o ensino seja universal, gratuíto e de qualidade". Nesse contexto, o sintetização feita pela indiana Gita Verma, na obra Slumming India (literalmente, algo como "Favelizando a Índia"): "A causa básica da favelização urbana parece ser não a pobreza, mas a riqueza urbana".

http://cartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=13339

1 comentário:

africamente disse...

www.africamente.com : um novo espaco de amizades e encontros, com videochat, mapas, blogs, albuns de fotos, videoteca, música e noticias !