domingo, fevereiro 04, 2007

BASTA DE HIPOCRISIA, DESPENALIZAR A IVG JÁ!

Diario de Tras-os-Montes.
Domingos Guedes.


Os nossos jornais nacionais, salvo rara excepção, têm-me consternado. Informar deixou de ser o seu objectivo. Agora, em Fevereiro de 2007, o seu objectivo é educar os seus leitores de acordo com os princípios da associação igreja católica - grande capital.

Temos lido milhões de letras, juntas em palavras, que se organizam em frases que, juntas, compõe dezenas de textos. Uns a apelar ao bom-senso dos cidadãos, outros a ameaçar, outros pura e simplesmente a envenenar o que devia ter sido um debate entre duas posições antagónicas.

Qual é a pergunta que vai a referendo na próxima semana? Se se está ou não de acordo com a despenalização voluntária da gravidez (aborto) até às 10 semanas... Não se pergunta se se está de acordo com o aborto, mas sim se se está de acordo com o fim da penalização de quem o praticar.

Analisemos os dois lados antagónicos neste referendo: o Não e o Sim.

Os elementos que defendem o Não à descriminalização de uma prática que sempre existiu utilizam, sobretudo, argumentos baseados na sua moral de crentes cristãos católicos apostólicos romanos. Defendem o direito à vida acima de tudo. São ferozes defensores da criminalização de quem decidir não ter o rebento que leva dentro, no que fazem lembrar as cruzadas contra os não-crentes, características do passado mais negro e obscuro da igreja que os apoia. Nessas cruzadas, como todos sabemos, o direito à vida era relativo, não era superior às diferenças religiosas que os opunham. A igreja castigava com a morte os que não compartiam a sua versão da realidade.

Só que, como temos assistido nas últimas semanas, há inúmeros movimentos de crentes católicos que perceberam que este referendo não é uma questão de crença religiosa. Muitos terão mesmo percebido o que realmente está por detrás dos defensores do Não: a economia. Sim, os mais interessados em manter o actual sistema penalizador são os grandes grupos económicos, como o Millenium BCP, entre outros. Porquê? Porque são proprietários de clínicas privadas, abortivas, que lucram muito mais com um quadro penalizador ou não liberalizado de uma prática que sempre existiu. Uma prática à qual mesmo freiras de clausura recorriam, para apagar desvios de conduta com este ou aquele clérigo. O grande capital nacional e mesmo internacional pretende manter o actual sistema de lucro com a miséria alheia. Todos eles sabem que a vitória do sim no referendo de 11 de Fevereiro implicará mudanças nos seus negócios, pelo menos neste ramo dos seus negócios.

Os elementos que defendem o Sim vão lutando, numa relação de forças muito desigual, pelo esclarecimento das populações um pouco por todo o país. E não são só pessoas de esquerda. Aqui, devo confessar, fiquei eu admirado com a honestidade intelectual de pessoas da direita transmontana, como Assunção Esteves, conhecida euro-deputada do PSD de Vila Real. Mesmo o PSD do distrito do Porto declarou a sua adesão à luta pela despenalização do aborto. É uma causa de esquerda? Sim, claro, na medida em que pretende acabar com uma injustiça grave que persiste no nosso país.

Acabou a era de ter filhos para aumentar o “rebanho do senhor”. Agora, em pleno século XXI, tem filhos quem pode financeiramente e quem pode biologicamente. Não basta querer. E os mesmos senhores que vão para a televisão e para os jornais defender o valor supremo da vida são os mesmos que defendem a manutenção do actual sistema económico que impossibilita muitas famílias, financeiramente, de ter filhos. Afinal, em que é que ficamos? Se querem que as pessoas tenham filhos dêem-lhes condições para os ter. E essas condições implicam salários bem superiores aos 400 euritos mensais que mal dão para uma pessoa. Deixem-se de hipocrisias! E não queiram que seja penalizado quem não pensa como vocês. Essa é a diferença grande entre um SIM que não prejudica ninguém, antes pelo contrário, e um Não que impõe regras e castigos a toda a população.

A campanha do Não é ruidosa e mediática: conta com o apoio dos grupos económicos ligados às clínicas abortivas particulares, quer portuguesas quer espanholas; conta com o apoio dos grupos económicos ligados à Opus Dei, que controlam grande parte dos meios de comunicação do nosso país; e conta com o apoio de boa parte da Igreja Católica. Só não vê quem é cego e mesmo esses cheiram-no: muito dinheiro deve haver em jogo, realmente.

Muitas das senhoras que aparecem na praça pública a defender a punição das mulheres que abortam são conhecidas por serem “senhoras de bem”. Senhoras que não hesitam levar as suas filhas às mais exclusivas clínicas espanholas para acabar com “desgraças familiares”. Mesmo num dos mais exclusivos bairros da capital do Norte Conservador, a Boavista, existe pelo menos uma dessas exclusivas clínicas abortivas. Que, a ver pelo movimento, deve fazer rios de dinheiro com a prática deste “crime horrendo”, como dizem os mesmos diante dos órgãos de comunicação social. Qual é o problema das pessoas que defendem o Não? Será que essas senhoras e esses senhores diriam o mesmo se tivessem salários de 400 euros mensais?

O Não é, assim, uma tentativa de perpetuação de uma injustiça social que já deveria ter sido atacada muito antes. Uma injustiça que afecta as mulheres e os homens portugueses que menos recursos têm para viver. O Não não é mais do que a luta conservacionista dos que têm lucrado com a miséria e as necessidades alheias. Usam a igreja e a crença cristã como exército, um empréstimo de armas para a sua guerra particular.

Só com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez – aborto – teremos condições mais justas para os que piores condições de vida têm, quer para si quer para oferecer. Os que têm condições biológicas e financeiras para ter filhos e os queiram ter poderão continuar a tê-los. Os que não têm condições para os ter não têm por que ser penalizados pela sua opção.

No dia 11 de Fevereiro votarei SIM para acabar com o actual quadro legal de injustiça no acesso a uma prática que é, pela sua actual ilegalidade, objecto de lucro de uns e a miséria de outros.

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