quinta-feira, fevereiro 01, 2007

O Socialismo Nacionalista hoje

Por: Francesco Traficante.

A maioria dos erros que o nacionalismo galego tem cometido ao longo destas últimas décadas tem tido a sua origem em posturas que partírom de ideologismos que nom respondiam às autênticas necessidades da sociedade galega e que portanto tenhem dificultado tanto a conexom com a cidadania como o oferecimento de soluçons convincentes e que tivessem umhas garantias de realismo para serem capazes de resolver esses mesmos problemas. Longe dos dogmatismos e apriorismos, o socialismo democrático que dentro do BNG representa um partido como Esquerda Nacionalista tem de continuar a contribuir através do BNG com propostas e ideias para a sociedade galega que sejam operativas dentro da realidade económica, social e política da Galiza do século XXI. Vivemos já numha Galiza mui diferente à que podia existir na época da Transiçom de começos do último quartel do século passado. Nesse sentido, tanto a esquerda como o próprio nacionalismo galego tenhem que tentar desprender-se de aderências messiánicas refletidas muitas vezes em expressons sintomáticas como “salvar o país”, e fazermos um nacionalismo cívico que contribua a um progresso tecnológico, industrial e de benestar social compatível com um desenvolvimento sustentável para a nossa naçom.

Mas nom por isso devemos renunciar ao marxismo como instrumento de análise, pois para entender a nossa realidade e transformá-la, segue a ser necessário estudar os mecanismos de deformaçom ideológica que ocultam a análise e a percepçom adequada dessa mesma realidade. Sem essa análise rigorosa e longe de apriorismos ideologistas é impossível desenhar planos racionais de carácter político, jurídico e económico para a transformaçom social e nacional da Galiza.

Contudo, isso nom implica renunciar aos princípios do socialismo por um suposto pragmatismo para achegarmos mais rápido ao poder. O socialismo nasceu como reacçom à desigual distribuiçom do poder no capitalismo e à igualdade de oportunidades dos diversos sectores sociais, e nom devemos renunciar à razom da nossa existência. Devemos seguir a defender un conceito de poder político como instrumento de redistribuiçom dos recursos, mas sem por isso questionar globalmente a propriedade privada dos meios de produçom, pois outras sociedades que renunciárom a umha economia de mercado fracassarárom ao cabo de certo tempo. Neste sentido o exemplo da Uniom Soviética é paradigmático.

Contudo, este marxismo também debe ser actualizado e posto ao dia. Nom há nada mais anti-marxista que um pensamento dogmático. Eis a razom da oportunidade e mesmo necessidade de revisar continuamente as suas teses à medida que a realidade sócio-política vai mudando. Se para Marx o poder económico era a base do poder político, hoje essa afirmaçom deve ser tomada já com numerosos matizes, pois nas sociedades actuais temos também outros factores como o poder político das eleiçons ou os novos movimentos sociais, dos quais se falará no próximo artigo, que pressionam com muita maior eficácia esses mesmos poderes económicos. As sociedades actuais estám muito mais estruturadas (quando menos as ocidentais) das que pudo estudar Marx.

O socialismo democrático nom quer abolir a propriedade privada nem desmantelar os mecanismos do mercado, mas desenvolver o poder do Estado como contrapeso à desigualdade do poder económico. O Estado segue a ser em essência o único mecanismo acessível para redistribuir o poder de decisom. Se há umha cidadania o suficientemente consciente e activa (e eventualmente uns meios de comunicaçom com a liberdade suficiente) pode obrigar ao Estado a submeter todo tipo de questons públicas ao princípio de legalidade e procedimento democrático e articular desse jeito um poder público difuso e expansivo, democraticamente regulado. É assim como podemos ver que espaços antes pertencentes ao âmbito do privado (relaçons de parelha, nomeadamente o maltrato às mulheres ou os usos da língua, por exemplo), vem-se agora pola pressom popular obrigados a serem transformados em espaços “públicos” ordenados polos valores universais recolhidos na Carta dos Direitos Humanos.

Mas também deveríamos tomar em conta o que dizia Gramsci, que nom deve ficar apenas numha simples luita pola conquista do aparelho do Estado (e os seus distintos órgaos administrativos, tais como a Autonomia e concelhos no caso da Galiza), mas também trabalhar socialmente desde a base, pois a esquerda estará mais assentada no seio da sociedade na medida em que sejamos quem de consolidar umha sociedade civil baseada numha ideologia e cultura de esquerdas, e no nosso caso, nacionalista. Sem essa base social, ainda que o BNG chegar o ao poder, acabaria passando de ser um projecto emancipatório social e nacional a converter-se num simples instrumento de interesses de umha minoria privilegiada (deputados, liberados, cargos políticos da administraçom, etc.). E é que para Gramsci o Estado se realiza e consolida expandindo-se cara à sociedade civil.

Por desgraça hoje em dia (sobretudo nos últimos anos de governo do PP) estamos a passar a fume de caroço de um Estado social e democrático cara a um Estado Guardiám, com um desmantelamento do público na Sanidade e Educaçom, a desregulaçom das relaçons económicas, sociais e laborais e demais. Contudo isto insere-se na onda de neo-conservadurismo que representam indivíduos como o próprio Aznar, Bush, Berlusconi e até Blair.

Para combater essa agressom à Galiza, tanto a nível do Benestar Social como do poder político e jurídico da Autonomia, as vias mais efectivas serám termos esse programa que há que ir revisando, melhorando e afinando mais cara a dotar de umha alternativa crível ao poder actual. Aliás, será preciso trabalhar mais na base, longe de mantermos os círculos sociais pechados de “nacionalistas” que se tenhem dado no passado em certos ambientes. Só assim possibilitaremos fazer chegar esse programa a um maior número de cidadaos e cidadás sem que uns meios de comunicaçom alheios aos nossos interesses distorsionem as nossas propostas. Nesse sentido, e ainda que fica muito por andar, o caminho encetado através dos documentos da X e XI Assembleia parecem abrir caminho à esperança e ao optimismo. Já só falta que as pessoas que tenham a máxima responsabilidade para levar a cabo a sua aplicaçom o fagam com convencimento e decisom. Que assim seja.

Sem comentários: