terça-feira, março 27, 2007

Contra a xenofobia dos imbecis

Jayme Brener/ REVISTA PANGEA

O Artigo Serão os semitas Humanos?, do sr. Georges Bourdokan, não mereceria resposta: trata-se de uma provocação racista e mentirosa, cujo destino deveria ser a lata de lixo da história ou as barras dos tribunais.

O que motiva esta resposta, porém, é o fato de o artigo ter sido publicado por Caros Amigos, revista que se considera de esquerda. E, imagino, identifica-se com os valores do humanismo e da igualdade, que hoje empolgam a sociedade brasileira. O artigo xenófobo do sr. Bourdokan implora por uma resposta nacionalista, que siga sua lógica. Mas não; com larga trajetória de esquerda, filho e neto de simpatizantes comunistas, escolho a trilha do humanismo internacionalista que, suponho, vá ao encontro dos anseios do público leitor da revista.

Comecemos pelo eixo do artigo: “Israel é um Estado criado pelos nazistas, aliados incondicionais dos sionistas”. Para justificar a mentira, O sr. Bourdokan pinça contatos, nos anos 30/40, entre emissários de Hitler e líderes sionistas e a origem judaica de personagens como Reinhard Heydrich, o célebre “carniceiro da Boêmia e Morávia”. Primeiro, os fatos: houve, sim, contatos entre dirigentes sionistas e o nazismo até 1942, quando estes decidiram pela “solução final”, a exterminação dos judeus europeus. Até então, os nazistas aceitavam a simples “expulsão dos piolhos judeus” da Alemanha. Os contatos eram justificados: visavam salvar milhares de vidas e o fizeram.

A “solução final” tentou selar o destino de todos os judeus: de esquerda, direita, religiosos ou não. Judeus comunistas, trotskistas, socialistas e sionistas de esquerda avolumaram-se na resistência antinazista em toda a Europa: da Espanha à Polônia e Albânia. Havia judeus entre os resistentes tchecos que justiçaram Heydrich. O líder do heróico levante do Gueto de Varsóvia (1943), Mordechai Anielewicz, um socialista sionista, atirou-se de um prédio em chamas, envolto na bandeira de Israel.

Havia colaboracionistas judeus? Claro. E estes foram os primeiros a ser mortos pelos rebeldes de Varsóvia. Mas nada que lembrasse, por exemplo, a divisão muçulmana das SS genocidas, o golpe pró-nazista de 1941, no Iraque, ou o fato de o principal líder muçulmano da Palestina, o mufti Hajj Amin el-Husseini, receber a nomeação de oficial SS. Tudo em nome da luta contra o colonialismo britânico e “seus aliados, os judeus”. (É preciso definir, afinal, se os sionistas serviram Hitler, Sua Majestade, os dois, Salazar, o papa...)

Bem, e quanto à Israel contemporânea? Tive a honra de militar ao lado de alguns dos mais decididos opositores da política expansionista de Israel – judeus e palestinos que acreditam na coexistência pacífica. Em 1982, foram ativistas palestinos que me defenderam de uma surra preparada pela extrema-direita judaica em São Paulo, quando publicamente me opus à invasão israelense no Líbano.

Lembremo-nos que o pacifista israelense Emil Grunzweig foi assassinado por um extremista judeu de direita. Um facínora semelhante matou o primeiro-ministro Itzhak Rabin, furioso com a perspectiva de paz “com o inimigo palestino”.

Pois bem, onde estão esses espíritos generosos? Foram derrotados por gente como o sr. Bourdokan, a partir de dois eventos. O primeiro, foi a decisão de Arafat, de não aceitar o acordo proposto pelo governo trabalhista de Ehud Barak, e que previa, além do Estado palestino na maior parte da Cisjordânia e de Gaza, a soberania compartilhada sobre Jerusalém.

Arafat disse “não” por temer que gente como o sr. Bourdokan, com seu discurso hidrófobo, empolgasse massas palestinas cansadas de décadas de expansionismo israelense e destronasse a burocracia da OLP. O fracasso do processo de paz jogou Israel para a direita, elegeu o assassino Ariel Sharon, que, pouco antes das eleições, “passeou” provocativamente pela Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém. A gracinha detonou a nova intifada e representou a segunda grande derrota das esquerdas democráticas e pacifistas.

Há poucos dias, o novo líder trabalhista, Amram Miztná, defendeu a imediata retirada israelense de Gaza. No dia seguinte, um assassino da Hamas explodiu um ônibus matando 12 pessoas, entre elas crianças. “Os extremistas palestinos tentam reeleger Sharon. Sua idéia é torpedear qualquer possibilidade de os pacifistas terem êxito nas eleições. Querem forçar os eleitores israelenses a votar na direita”. Sabem de quem é a análise? De Riad Malki, diretor do Centro Palestino para a Disseminação da Democracia e Desenvolvimento Comunitário (Folha de S. Paulo, 22.11.2002)...

Certo, Israel é uma força de ocupação, agressora em relação aos palestinos. Mas hoje, os objetivos da Hamas e de Sharon são os mesmos; dão-se as mãos na lógica da destruição total do inimigo. Os pacifistas israelenses estão quase nocauteados; Arafat é incapaz de romper o círculo vicioso da violência.

Aqui no Brasil, o sr. Bourdokan tenta revestir a defesa da destruição com um verniz de esquerda. Está na moda e há gente que é especialista em pegar onda. Afinal, o neonazismo infiltrou-se nas violentas torcidas de futebol da Bélgica, Grã-Bretanha, nos anos 80, porque sentia o terreno fértil... Há, hoje, no Brasil, centenas de milhares de “esquerdistas desde criancinhas”, que estão testando o terreno. Ou talvez apenas esperem receber benesses de algum ministério ou prefeitura...

Alguns intelectuais “de esquerda” não conseguiram esconder seu regozijo pelo assassinato de três mil inocentes no World Trade Center, em 2001. “O que são três mil mortos perto dos crimes cometidos pelos EUA?”, dizem, escondendo o fato de que Bin Laden legitimou o expansionismo de George Bush filho.

Que ninguém se engane. A Anistia Internacional é sábia ao lembrar que não se comparam crimes nem tragédias. O soldado israelense que mata uma criança é tão assassino quanto o homem-bomba que detona uma adolescente. Não há crianças “de esquerda” ou “de direita”, judias ou palestinas. Há apenas crianças.

O líder socialista August Bebel dizia que o anti-semitismo – entendido aí como antijudaísmo – é o “socialismo dos imbecis”. Não nos rendamos a quem tenta fazer os socialistas de imbecis. A luta, sem quartel, é em defesa da democracia, do humanismo, contra a ocupação israelense e o terrorismo da Hamas, em nome da convivência pacífica dos povos.

http://www.clubemundo.com.br/revistapangea/show_news.asp?n=171&ed=2

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