terça-feira, março 27, 2007

Palestino pede que Irã pare de negar o Holocausto

Marcos Guterman

Mahmoud al Safadi passou 18 anos preso em Israel por participação na Intifada. Agora solto, resolveu escrever uma carta aberta ao presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, pedindo-lhe que pare de negar o Holocausto. Segundo Safadi, lançar dúvidas sobre um fato histórico da magnitude do massacre dos judeus, vinculando essa negação a uma suposta "defesa" da causa palestina, como faz Ahmadinejad, na verdade acaba por ridicularizar e enfraquecer a própria causa.

A carta de Safadi é um importante documento, pois dá lições definitivas de como é possível conhecer honestamente a história, mesmo num ambiente contaminado de rancor. Leia a seguir os principais trechos:


"Senhor presidente, escrevo-lhe em razão da sua anunciada intenção de organizar uma conferência sobre o Holocausto em Teerã, em 11 e 12 de dezembro, e espero sinceramente que esta carta seja levada à sua atenção.

Permita-me em primeiro lugar apresentar-me: sou Mahmoud al Safadi, antigo prisioneiro da Jerusalém ocupada. Fui solto há menos de três meses da prisão israelense em que estava havia 18 anos, pelo crime de ter pertencido à Frente Popular de Liberação da Palestina e ter tomado parte ativa na resistência à ocupação durante a primeira Intifada.

Desde que o senhor se elegeu presidente, segui com grande interesse as suas declarações – em especial as relativas ao Holocausto. Respeito sua oposição às injunções americanas e ocidentais relativas ao programa nuclear iraniano e considero legítimo que critique a dupla linguagem que o mundo usa em relação ao desenvolvimento nuclear de certos regimes.

Mas inquietam-me sua insistência em afirmar que o Holocausto nunca não teve lugar e suas dúvidas sobre o número de judeus que foram assassinados nos campos de concentração e de extermínio, nos massacres organizados e nas câmaras de gás – afirmações que negam o próprio significado histórico do período nazista.

Permita-me dizer, senhor presidente, com todo o respeito que lhe devo, que o senhor fez essas declarações sem realmente conhecer a indústria da morte nazista. Ter lido as obras de alguns negacionistas lhe parece ter sido suficiente – é um pouco como um homem que grita em um poço e se dá por satisfeito ao ouvir o eco de sua própria voz. Acho que um homem em sua posição não deveria cometer um erro tão grande, porque poderia voltar-se contra o senhor e, pior ainda, contra seu povo.

Como o senhor mesmo e milhões de pessoas no mundo – entre as quais, infelizmente, inúmeros árabes e palestinos –, eu também estava convencido de que os judeus exageravam e mentiam a respeito do Holocausto, e de que o movimento sionista e Israel se servem do Holocausto para justificar a sua política, sobretudo contra o meu próprio povo.

O longo período que passei na prisão deu-me a oportunidade de ler livros e artigos cuja leitura a nossa ideologia e as nossas normas sociais proíbem. Esses documentos procuram desenvolver um conhecimento exaustivo da história do regime nazista e o genocídio que ele perpetrou. (...) Esses testemunhos foram escritos por pessoas de diversas nacionalidades, judeus ou não-judeus.

Quanto mais aprendia, mais entendia que o Holocausto era efetivamente um fato histórico e maior se tornava a minha consciência da dimensão monumental do crime cometido pela Alemanha nazista contra os judeus, contra outros grupos sociais e nacionais e contra a humanidade em geral. (...) Independentemente do número de vítimas, o crime é monumental. Qualquer tentativa negá-lo priva o negacionista da sua própria humanidade (...). Todo aquele que nega o fato de que esse desastre humano teve realmente lugar não deve se surpreender quando outros negam os sofrimentos e as perseguições infligidos ao seu próprio povo por líderes tirânicos ou ocupantes estrangeiros.

Desse modo, pergunto o seguinte: as centenas de milhares de testemunhos escritos a respeito dos campos da morte, das câmaras de gás, dos guetos e dos assassinatos em massa cometidos pelos nazistas, as dezenas de milhares de trabalhos de investigação baseados em documentos alemães, os numerosos filmes nazistas, toda essa massa de provas foi fabricada, uma a uma?

Tudo aquilo se resume simplesmente a uma conspiração imperialista-sionista? As confissões feitas por autoridades nazistas sobre o seu papel pessoal no projeto de extermínio de nações inteiras são apenas fruto da imaginação de algum espírito incomodado?

E todos os fatos heróicos dos povos sujeitos à ocupação alemã, como os russos, os poloneses e os iugoslavos, são apenas mentiras e exageros grosseiros? A luta dos soviéticos contra a Alemanha nazista seria apenas um fantasma? Os russos continuam a celebrar a sua vitória sobre a Alemanha nazista e a recordar os milhões de compatriotas civis e militares que perderam a vida nessa luta. Mentem, eles também?

Convido-o a ler estudos históricos e testemunhos sérios antes de fazer as suas declarações públicas. O senhor divide o mundo em dois campos: os imperialistas-sionistas, que fabricaram o mito do Holocausto, e os adversários do imperialismo, que conhecem a verdade e desmascaram a conspiração. O senhor pensa talvez que o fato de negar o Holocausto o coloca à frente do mundo muçulmano, e que esta negação constitui um instrumento válido no combate ao imperialismo americano e à hegemonia ocidental. Fazendo isso, no entanto, o senhor causa mais mal que bem às lutas populares no mundo.

Na melhor das hipóteses, o senhor cobre de ridículo o seu povo e o senhor mesmo, aos olhos das forças políticas que rejeitam o imperialismo, mas que não levam a sério suas concepções e seus argumentos, pelo fato de negar de maneira obsessiva um período histórico abundantemente documentado e estudado, e cujas conseqüências ainda se fazem sentir e sempre são discutidas.

Na pior das hipóteses, o senhor desencoraja e enfraquece as forças políticas, sociais e intelectuais que, na Europa e nos EUA, rejeitam a política de confronto e de guerra de George Bush, mas são levadas a concluir que o senhor também põe o mundo em perigo, por causa de suas declarações que negam o genocídio e por causa de seu programa nuclear.

No que diz respeito à luta do meu povo para a sua independência e a sua liberdade, o senhor talvez considere a negação do Holocausto como uma expressão de apoio aos palestinos. Mas o senhor está enganado. Lutamos pela nossa existência e pelos nossos direitos, e contra a injustiça histórica que nos foi feita em 1948. Não obteremos a nossa vitória e a nossa independência negando o genocídio perpetrado contra o povo judaico, ainda que as forças que ocupam hoje o nosso país e nos privam façam parte desse mesmo povo".

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