segunda-feira, julho 09, 2007

MENORES TÊM SEXO VIRTUAL A TROCO DE CARREGAMENTOS DE TELEMÓVEL

DIARIO DE NOTICIAS / ISABEL LUCAS /ANDRÉ CARRILHO (imagem).

"Olá a todos. Faço sexophone apenas com uma câmara de telemóvel, mas só se me carregarem o telemóvel." Não foi omitida nenhuma vogal e todas as palavras estão devidamente acentuadas, ao contrário do que aconteceu no original. O anúncio podia estar nas páginas de classificados de um jornal, mas foi expressa online numa sala de chat portuguesa, aberta a quem quiser entrar. A autora da frase tem 14 anos e responde pelo nickname de Dina. "Va gajux gaja 14 anos torres novas; atao rapaxex? gajux bonx teclam??" Agora é Karol quem assina. A mesma idade, mas uma linguagem descodificável apenas para os habituais nas salas de chat, ou chat rooms.

Dina, Karol, mas também Pipa, Gatolindo ou Damadamuxgueira são protagonistas e autores de um argumento que conta uma história de encontros virtuais com perigos escondidos. São narradores na primeira pessoa de um livro com centenas de diálogos e alguns monólogos que estará nas livrarias dentro de duas semanas. Chama-se O Abominável Mundo dos Cibernautas (Gradiva) e pretende, segundo os autores, ser um alerta.

Tal como Dina, "há raparigas com 14 anos a fazerem sessões de strip e masturbação perante as câmeras web em troca de carregamentos de dez euros no telemóvel, para pessoas que não sabem quem são", escreve Renato Montalvo, um dos autores, no prefácio do livro. "Há que alertar as pessoas para esta realidade. Qualquer jovem tem acesso livre a páginas de conteúdo pornográfico", declarou ao DN, atirando um número: durante os dias 9 e 14 de Março deste ano, 78 por cento dos visitantes de chats que se identificaram ao longo das conversas eram estudantes.

Renato Montalvo e Conceição Monteiro, um ex-jornalista e uma professora de Filosofia do ensino secundário, passaram mais de 70 dias de olhos postos nas chat rooms, numa média de quatro horas diárias, e publicam agora uma selecção das conversas a que tiveram acesso. "Somos uns compiladores apenas," apresenta-se Renato Montalvo, que remete para "os especialistas em educação, sociologia, psicologia" a análise do conteúdo. "Mais do que respostas, a intenção foi levantar questões", acrescentou.

Elegeram como objecto de estudo as salas de chat do AEIOU (a Blá-Blá, a Cupido, a Kamasutra) e usaram o Windows Live Messenger, mais conhecido por MSN. Motivo da escolha: "o AEIOU é dos sites mais moderados e dos que apresentam mais nuances e oportunidades para um observador". Um e outro foram espectadores que reservaram a si a selecção de textos. "São textos de adultos e de adolescentes que dão o ambiente que se vive em cada sala." Essa selecção, garantem, passou pelo filtro da moderação. Ainda assim, afirma Renato Montalvo, "o que aqui está é chocante."

E pode ser confundido com puro voyeurismo. Por isso, ponderaram editar ou não, sobretudo depois de receberem uma carta de um psicólogo a recomendar-lhes contenção. "Qual era a alternativa? Não falar?", interroga-se o autor. Ele mesmo responde. "Não dizer nada era uma opção. Pensámos escolher os textos menos agressivos, mas ser mais brando é como os caldos de galinha. Decidimos mostrar a realidade sem cortes nem censuras. A nossa participação foi coligir textos e somos responsabilizados pela escolha." Foram publicados cerca de dois por cento dos diálogos que poderiam aparecer no livro. E, garante Montalvo, "não foram os mais hard."


O medo da chantagem.

Grátis, de acesso fácil, o erotismo está virtualmente ao alcance de todos. Adultos ou menores. "O problema reside na anarquia que permite a crianças a livre utilização de páginas, de programas e de conteúdos, que deveriam ser estritamente para adultos", denuncia o autor do livro. Mas fará sentido proibir? A resposta é invulgarmente "não". As coordenadas para navegar na Internet são as mesmas para estar na vida.

Só que, sob a capa do anonimato, o grau de desinibição aumenta ou, como refere o sociólogo José Machado Pais, "em cada janela [virtual] é possível assumir distintas identidades, embora simultâneas." Há uma "estética de jogo de fantasia"que se aproxima do romantismo, acrescenta, onde o sentir predomina sobre o pensar. Como no amor e nas paixões fora das janelas virtuais. A diferença é que estes relacionamentos se podem apagar com o clicar de uma tecla: escape.

Outra diferença entre virtual e real é a ilusão, a falsa ideia de que, por ser virtual, o sexo na Internet não traz riscos, é "asséptico" porque os corpos estão ausentes. A advertência, sarcástica, vem curiosamente de alguém com o nick "Pirilau". Está na sala Blá Blá e dirige-se a outro alguém cuja identidade não é revelada: "Linda menina... já aprendeste a ver a diferença entre realidade e virtual. a seguir é a aula da ilusao-desilusao" (sic).

Será isso que terá de aprender "Urgência", outra adolescente que surge mais tarde na mesma sala: "oii, sou nina, alguém me carrega o telemóvel?? mando fotos nua, e das partes mais privadas, mostro-me na web a alguém???" (sic).

O anonimato dos chats garante "maior fluidez de comunicação, desprendida de comprometimentos", afirma José Machado Pais. "Na vida real, os mecanismos emocionais da vergonha e do ridículo dificultam as aproximações amorosas, desencadeando mecanismos de medo. Este medo é contornado quando, sempre sob anonimato, se buscam ligações ciberespaciais." É a circunstância comunicacional a fazer a diferença e a funcionar como garante de "salvação de face", mas apenas "até certo ponto", adverte ainda o sociólogo no livro Nos Rastos da Solidão (Ambar).

Gabriela Moita, psicóloga clínica, diz ter conhecimento de casos como estes. Jovens numa rede [Net] da qual não sabem como sair. Espécie de adição raramente confessada e cheia de possibilidades, muitas delas com riscos escondidos. "Nunca me foi apresentada como problema, mas apercebo-me dessa realidade na sequência de conversas." É o medo que as revela. Ou melhor, o medo da chantagem que inicialmente as cala, acaba por ser o mesmo que o psicólogo detecta. Gabriela Moita diz que nunca lhe apareceu no consultório nenhum pai com este tipo de preocupações. "Tanto quanto me parece, quando ocorrem, eles não têm conhecimento", justifica. A especialista acrescenta: "Normalmente têm a noção de que controlam; de que se forem ver o histórico dos sites consultados na Internet conseguem saber o que os filhos estão a fazer."

Fica a pergunta de Ricardo Montalvo: Saberiam os pais de M..., de 12 anos, que ela estava numa sala de chat às quatro da madrugada?

* Os diálogos foram reproduzidos tal como estão no original

http://dn.sapo.pt/2007/07/08/sociedade/menores_sexo_virtual_a_troco_carrega.html

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