quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Ante as eleições generais 2008 en Espanha

Padre Mario.

Os bispos da nossa vizinha Espanha, a um mês de eleições gerais no país, continuam a dar sucessivas e suicidas mostras de que vivem cheios de saudades do seu inesquecível amigo e incondicional colaborar Franco. Tal como os bispos portugueses, todos estes anos depois de Abril de 1974, ainda continuam cheios de saudades de Salazar. Tanto, que até já se fala cada vez mais abertamente na net da sua possível beatificação e canonização!!!

Um e outro foram ditadores, dos mais cruéis. Um e outro foram frios assassinos de Estado. Um e outro foram tiranos. Mas eram assumidamente católicos, iam à missa, ou tinham capelão privativo que lhes ia levar a missa aos respectivos palácios do Poder onde viviam encurralados. Acima de tudo, eram para os bispos dos dois Estados uma espécie de prolongamento, em pleno século XX, do também saudoso imperador Constantino, pelo menos, no tocante a reconhecerem e a imporem a Igreja católica como a única verdadeira, cujos cultos públicos toda a gente, com destaque para a da função pública, deveria reconhecer e frequentar, nem que fosse hipocritamente.

Deus, Pátria e Família eram os três valores estruturantes do seu Poder ditatorial, cultivados e impostos por eles a toda a gente. Constituíam as três traves mestras de cada um dos dois Regimes. Que Deus, que Pátria, que Família?, isso nunca poderia ser sequer discutido. Deus, só podia ser o Deus dos bispos católicos que os abençoava a eles e à sua Tirania, por mais ídolo que ele fosse. Pátria, só podia ser a dos dois ditadores e assassinos de Estado, escolhidos directamente pelo Deus dos bispos católicos para essa divina função temporal. E Família, só podia ser a família católica romana que os bispos e os seus clérigos nunca poderiam constituir - o celibato eclesiástico era e ainda é imposto por lei canónica, não é opcional, porque senão lá se iria todo o sistema eclesiástico católico por água abaixo - mas que, mesmo assim, tinham de impor às mulheres e aos homens que eles e os seus párocos, entretanto, não conseguissem aliciar e desviar para freiras e frades eunucos à força, confinados em mosteiros e conventos, com tudo de quartel e de fascismo.

Nem sequer Deus, o de Jesus, alguma vez poderia ter lugar na mente e no coração das pessoas, a não ser nos ateus do Deus dos bispos e dos seus dois fiéis ditadores, e em algum católico estranhamente dissidente na Igreja e por isso olhado e tratado como herege e traidor, digno do mais completo ostracismo. Tão pouco a Pátria tinha lugar para os dissidentes políticos, a não ser nas cadeias políticas, já que aos que o Regime não conseguia prender, exilava-os anos e anos a fio, ou perseguia-os na dureza da clandestinidade. Do mesmo modo, jamais havia lugar nessa Pátria para os milhões de pobres que se viam obrigados a emigrar a salto para outras paragens, à procura de espaços outros e de outras oportunidades. E o modelo de Família católica de modo algum reconhecia os afectos em liberdade e em responsabilidade, segundo as tendências e as orientações sexuais e afectivas que cada pessoa nascida, com o passar dos anos, descobria e descobre que traz em si. Por isso, a Repressão a outros modelos de Família, fora da Família católica romana, era total. E a Hipocrisia também.

Podia acontecer aqui e ali, mas sempre sob a forma de clandestinidade e de "pecado", nunca como prática assumida e reconhecida pela Lei de cada um dos dois Estados. Nestas matérias, a Lei era exclusivamente a do Moralismo dos Bispos, os quais não sabiam nada de afectos, nem de família. A única coisa que sabiam e ensinavam nos púlpitos e nos altares como doutrina (i)moral, é que até eles mesmos tinham sido concebidos em pecado, tinham nascido em pecado, as respectivas mães eram pecadoras, pois, para os conceberem e darem à luz, tinham perdido a virgindade genital que, na doutrina deles, era o cume da perfeição a que qualquer jovem, ela ou ele, poderia e deveria aspirar, já que o sexo, mesmo que realizado para procriar, era sempre pecado, senão mortal, pelo menos venial, mas o suficiente para afastar da comunhão nas missas os casais que o praticassem dentro do seu próprio casamento!

Fora desta aberrante visão moralista e obscena, não havia salvação. Palavra dos bispos católicos, sempre rubricada e sancionada como Lei civil pelos dois ditadores amigos deles e amigos entre si. Até os ateus ou agnósticos que não quisessem ser olhados sob suspeita política e andar metidos em sarilhos deveriam, nesses anos de Chumbo e de Inverno político e eclesial, estar com a Igreja dos bispos católicos, respeitá-la, frequentar os seus cultos e, sobretudo, dar-se bem com com eles e com os párocos que estavam à frente de cada freguesia-paróquia.

Franco e Salazar eram ambos frios assassinos de Estado, ditadores, tiranos? Os bispos bem sabiam que sim, mas também sabiam que eles eram assim pela graça de Deus, o dos bispos católicos, e para maior glória de Deus, o dos bispos católicos. Porque, para os bispos católicos, ainda hoje, quando os seres humanos desalinham, dissentem deles e das suas doutrinas e dos seus moralismos tornam-se um perigo público. A Religiosidade começa a dar lugar à Laicidade, os templos começam a ficar às moscas, as catequeses moralistas e pre-científicas ou mesmo anti-científicas passam a ser objecto de humor dos profissionais do dito, o salutar Profano afasta o demoníaco Sagrado, Deus passa a ser o Grande Mistério em lugar de ser a Grande Evidência, a Liberdade de consciência passa a ser a grande marca da presença do Humano na História, a Fé deixa de ser Inquisição e Religião, para ser cada vez mais Opção e Prática Política maiêutica dos povos e com os povos e, sobretudo, os seres humanos deixam de ser rebanho, para passarem a ser Sujeitos com as suas vidas e a vida do Universo nas próprias mãos.

Os bispos católicos sempre foram analfabetos em Liberdade e em Responsabilidade. Sempre foram peritos em Obediência e em Subserviência, em Vassalagem. Vassalos do Papa de Roma, sucessor do Imperador romano, pensam-se e comportam-se como príncipes e senhores absolutos perante os seus respectivos súbditos nas dioceses a que presidem autocraticamente, antes de mais, dos respectivos párocos que eles nomeiam e destituem, quando muito bem lhes aprouver. O Código do Direito Canónico ainda veio impor algumas limitações a esta arbitrariedade episcopal, mas, quando os bispos querem, até os seus cânones são letra morta.

Foi assim nos anos de Chumbo do Fascismo de Franco e de Salazar. E ainda é assim, nos dias de hoje, embora de forma já não tão escabrosa, que os tempos que se vivem são muito diferentes de outrora. Mas que os bispos católicos continuam aí com saudades desses tempos ninguém tenha dúvidas. Prova disso é a guerra cada vez mais aberta que os bispos católicos de Espanha estão a encabeçar contra a Modernidade, contra a Secularidade, contra a Liberdade, contra o Ser Humano livre e responsável. Para terem pretexto de a encabeçar, confundem propositadamente Modernidade com Modernismo, Laicidade com Laicismo, Liberdade com Libertinagem, e Ser Humano livre e responsável com libertino.

São a Mentira em acção, à semelhança dos Sumos Sacerdotes do tempo e do país de Jesus. De tão cegos que estão, nem sequer vêem que estão, eles próprios, a fazer implodir a Igreja, quando mais pensam que a defendem. Só que a sua Igreja não é a Igreja de Jesus. Não tem o Espírito de Jesus. Este PASSA, está a PASSAR mais por fora dela, atravessa a Sociedade espanhola de lés a lés e até é Ele quem mais se levanta contra os bispos católicos. Se eles desconhecem os Sinais da sua PASSAGEM, são analfabetos na leitura / interpretação dos Sinais.

Ainda não se deram conta de que o Deus que adoram é um ídolo, pai de Mentira e Assassino. Por isso, ou mudam de Deus, para o de Jesus, ou melhor fora que nunca tivessem sido ordenados bispos. Não sei como este enfrentamento encabeçado pelos Bispos católicos do Estado espanhol contra a Modernidade e a Secularidade vai terminar. Mas o pior que poderá acontecer aos bispos católicos é se forem eles os vencedores. Porque essa vitória será a do Obscurantismo e do Moralismo, da Mentira e do Infantilismo, o que representará um grande passo atrás na História, uma espécie de regresso à Idade Média.

Confio no discernimento das pessoas e dos povos do Estado espanhol. Já deram suficientes provas de maturidade. E irão dá-las, mais uma vez. Com eles, está também a Igreja cristã de base do Estado espanhol, fermento na massa, sal da terra, luz do mundo, sentinela na cidade. Os seus muitos membros terão muito que fazer nestes dias. Sei que não virarão a cara à luta. E que estarão na primeira linha de combate. Porque a Secularidade e a Laicidade são frutos não do Demoníaco, do Demente, como dizem os bispos católicos, mas do Espírito Santo, o de Jesus. Ir por elas, fortalecê-las é ir pelos Seres Humanos e pelos Povos. É contribuir para o desenvolvimento na História do Reino / Reinado de Deus, anunciado e iniciado por Jesus, o de Nazaré. Avancem, pois, minhas irmãs, meus irmãos de Fé do país vizinho. Nem que vos custe a vida. A Humanidade reconhecerá que sois o seu fermento, o seu sal, a sua luz, a sua sentinela. E em vós, descobrirá / reconhecerá Jesus, o de Nazaré e regressará a ele e ao seu Projecto, bem longe deste tipo de bispos católicos e da sua Igreja com saudades de Franco e de Salazar, por isso, adoradores não de Deus Vivo, mas do Ídolo.

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