quinta-feira, abril 22, 2010

É preciso lembrar (História do colante GZ)

Acho que foi num número do Novas da Galiza que lim pola primeira vez a expressão. Era a palavra fatalismo, e com ela o autor tentava explicar uma postura própria de muitos nacionalistas galegos, acorde com um certo pessimismo vital ao redor da situação da Galiza em todos os âmbitos: a desaparição do galego, a destruição do meio, a exploração laboral... Penso que qualquer pessoa que se socializou na militância da esquerda nacionalista sabe de que estou a falar, e se calhar tem alguém em mente que cumpriria à perfeição esse papel. A ideia que ficaria seria a de não sermos capazes de reverter a situação atual, e de as coisas, afinal, não se poderem mudar.

Ainda sendo óbvio convém lembrar que para além de ser uma postura que não conduz a parte nenhuma, a não ser à autoflagelação, há pequenas vitórias dentro do chamado MLNG que contradizem isto mesmo que estou a referir. Histórias que muito pouca gente conhece, sendo portanto necessário lembrarmo-nos delas. Uma fora a campanha desenvolvida há mais de dez anos pelo MDL (Movimento de Defesa da Língua). Solicitávamos que se incluísse o português nas Escolas Oficiais de Idiomas e, mediante um trabalho de activismo lingüístico hoje quase inexistente, começamos a recolher assinaturas pela rua e a enviar pedidos a diferentes administrações a solicitar o seu ensino. Ao pouco tempo de se iniciar a campanha, tínhamos português na escola de idiomas de Ourense e, com certeza, alguma influência devemos ter naquela decisão.

Mas sem qualquer dúvida uma outra dessas pequenas vitórias do reintegracionismo foi a história de como se articulou a criação do famoso GZ. Pouca gente sabe que o autocolante que hoje vemos em muitos carros e que foi assumido por todo o abano ideológico do nacionalismo galego (e até fora dele), partiu duma pequena publicação reintegracionista de Ourense que editava o Grupo Meendinho e que se chamava Gralha. Foi com o número 14 de dezembro de 1996, e ainda me lembro do dia em que fui à caixa dos correios para recolher aquela carta dum dos nossos assinantes. Nela formulava a sua ideia de criar para a Galiza um distintivo para os carros equivalente ao que já existia no País Basco com o EH ou na Catalunha com o CAT, e que ao mesmo tempo servisse como marcador do nome próprio na nossa nação, em contraposição ao regional G.

A ideia daquele assinante anónimo debateu-se nessas assembleias de Meendinho onde praticávamos um Braim Storming improvisado. Não houve muita discussão, decidimos editar 10.000 autocolantes GZ e presentear um com o último número do Gralha. Era uma maneira de o socializar dum modo rápido por todo o país. De súbito encontramos colaboração em coletivos de todo o tipo, como por exemplo o cineclube “Os Papeiros” que fez sua a iniciativa, enchendo as vilas de Chantada e Tabuada com o “GZ” e mesmo enviando comunicação à imprensa da campanha que estavam a desenvolver connosco. Surpreendeu-nos gratamente a acolhida que tivo, que não lembro já se a esperávamos. O que sim lembro é que ao pouco tempo de o GZ sair do prelo eu estava a caminhar pela rua Príncipe de Vigo. Ao olhar para uma dessas lojas que vendem diferentes recordações para turistas, comprovei como já tinham o GZ à venda em vários formatos! Pensei que o trabalho estava feito. Com os anos o GZ socializou-se de tal maneira que já muito pouca gente recorda qual foi a sua origem. Há muitos mais exemplos dessas pequenas vitórias. Estou a pensar por exemplo na camisola do LK, aplicando os postulados da Guerrilha da Comunicação, que surgiu como não podia ser dum outro jeito, de dois militantes da AMI de Ourense numa dessas conversas ao redor dum copo de Licor Café, ou o mais recente fenómeno do Apalpador, surgido da Gentalha do Pichel e que hoje ultrapassa as fronteiras do reintegracionismo e ainda mais do nacionalismo para ser assumido pelas instituições. Poderia colocar mais exemplos, mas acho que devem ser os próprios protagonistas a fazerem isso. É necessário que falemos deles, sobretudo quando nos encontremos com uma dessas pessoas onde a negatividade e o pessimismo é o que predomina. Recordemos esses exemplos e outros mais assim como os que com certeza virão. É por isso que cumpre lembrar.

galizalivre.org

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