segunda-feira, abril 26, 2010

A irmandade entre a República Bolivariana e Cuba.

[Artigo de Fidel Castro Ruz]

Tive o privilégio de conversar durante três horas na quinta-feira (15/4) com o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez, que teve a gentileza de visitar uma vez mais nosso país, procedente desta vez da Nicarágua.

Poucas vezes na vida, talvez nunca, conheci uma pessoa que tenha sido capaz de guiar uma Revolução verdadeira e profunda durante mais de 10 anos; sem um só dia de descanso, em um território de menos de um milhão de quilômetros quadrados, nessa região do mundo colonizada pela península Ibérica, que durante 300 anos dominou uma superfície 20 vezes maior, de imensas riquezas, onde impuseram suas crenças, língua e cultura. A história da nossa espécie no planeta não poderia ser escrita se fosse ignorado o que aconteceu nesse hemisfério.

Bolívar, por sua parte, não lutou somente pela Venezuela. As águas e as terras eram mais puras naquela época; as espécies, variadas e abundantes; a energia contida no gás e petróleo, desconhecida. Duzentos anos atrás, ao começar a luta pela independência na Venezuela, não o fazia somente pela independência nesse país, mas por todos os povos do continente ainda colonizados.

Bolívar sonhou em criar a maior República que jamais existiu e cuja capital seria o istmo do Panamá.

Em sua insuperável grandeza, O Libertador, com verdadeiro gênio revolucionário, foi capaz de pressentir que os Estados Unidos – limitado originalmente ao território das 13 colônias inglesas – parecia destinado a semear a miséria na América em nome da liberdade.

Um fator que contribuiu para a luta da América Latina pela independência foi a invasão da Espanha por Napoleão, que com suas ambições desmedidas, colaborou para criar as condições propícias para o início das lutas pela independência do nosso continente. A história da humanidade é sinuosa e cheia de contradições; e que se torna cada vez mais complexa e difícil.

Nosso país fala com a autoridade moral de uma pequena nação que resistiu mais de meio século de brutal repressão por parte desse império previsto por Bolívar, o mais poderoso que já existiu. A imensa hipocrisia de sua política e desprezo pelos demais povos o conduziu a situações muitos graves e perigosas. Entre outras consequências estão as provas diárias de covardia e cinismo, convertidas em práticas cotidianas da política internacional, já que a imensa maioria das pessoas honestas da Terra não tem possibilidade alguma de expressar suas opiniões, nem de receber informações fidedignas.

A política de princípios e a honestidade com que a Revolução Cubana sempre expôs acertos e erros – e de modo especial determinadas normas de conduta nunca violadas ao longo de mais de 50 anos, como a de não torturar jamais um cidadão – não tem nenhuma exceção. Da mesma forma, nunca cedeu nem cederá ante a chantagem e o terror midiático. São fatos históricos mais que demonstrados. Se trata de um tema sobre o qual poderia se argumentar amplamente; hoje simplesmente o ressaltamos para explicar nossa amizade e nossa admiração pelo presidente bolivariano Hugo Chávez, um tema sobre o qual poderia me estender consideravelmente. Basta citar nessa ocasião alguns elementos para explicar por que afirmei que constitui um privilégio conversar por horas com ele.

Ele ainda não havia nascido quando o Quartel Moncada foi atacado em 26 de julho de 1953. Tinha menos de cinco anos quando a Revolução de Primeiro de Janeiro de 1959 triunfou. O conheci em 1994, 35 anos depois, quando há havia cumprido 40 anos. Pude observar desde estão seu desenvolvimento revolucionário durante quase16 anos. Dotado de excepcional talento, e leitor insaciável, posso atestar sua capacidade para desenvolver e aprofundar as ideias revolucionárias. Como em todo ser humano, o azar e as circunstâncias desempenharam um papel decisivo no avanço de suas ideias. É notável sua capacidade de se lembrar de qualquer conceito e repeti-lo com incrível precisão muito tempo depois. É um verdadeiro professor no desenvolvimento e divulgação das ideias revolucionárias. Possui o domínio das mesmas e a arte de transmiti-las com assombrosa eloquência. É absolutamente honesto e sensível com relação às pessoas, sumamente generoso por natureza. Não exige que o elogiem. Quando não concordo com alguns de seus pontos de vista ou qualquer decisão sua, simplesmente transmito a discordância com sinceridade, no momento adequado e com o devido respeito a nossa amizade. Ao fazê-lo, tomo principalmente em conta que hoje ele é a pessoa que mais preocupa o império, por sua capacidade de influenciar as massas e pelos imensos recursos naturais de um país que saquearam sem piedade, e também a pessoa a quem, com todo rigor, tentam atingir e retirar a autoridade. Tanto o império como os mercenários a seu serviço, intoxicados pelas mentiras e o consumismo, correm uma vez mais o risco de subestimar Chávez e seu heróico povo, mas não tenho a menor dúvida de que mais uma vez receberão uma lição inesquecível. Mais de meio século de luta me diz que sim, com toda a clareza.

Chávez leva a dialética dentro de si próprio. Nunca, em nenhuma época, nenhum governo fez tanto por seu povo em tão pouco tempo. Me agrada de uma maneira especial transmitir a ele e a seu povo uma calorosa felicitação pelo 200º aniversário da luta pela independência da Venezuela e da América Latina. O destino quis também que no dia 19 de abril se comemorasse a vitória da Revolução contra o imperialismo em Girón, há exatamente 49 anos. Desejamos compartilhar essa vitória com a Pátria de Bolívar.

Me contento em saudar igualmente a todos os irmão da ALBA.

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