segunda-feira, maio 03, 2010

Encaixar a Galiza no mundo

Por Artur Alonso Novelhe para AGAL

Os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam poderia ser achado numa só rosa”

Antoine de Saint-Exupéry

Perante o desastre do Iraque e do Afeganistão, a doutrina “neocom” da Administração Bush filho, de visão unipolar e militarização das relações políticas e económicas, entrou numa fase de travão, desconcerto e posterior decaimento. A sua incapacidade para impor os ajustamentos necessários a nível global deu passo a um novo conceito de volta ao poder brando, e uma nova política de alianças globais mais acordes com os novos desafios e as novas realidades.

A nova era Obama tem a ver muito com isto. No seu afã de estimular um novo modelo estrutural de reparto de poderes, os novos atores BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) viram com bons olhos a mudança efetuada em Washington.

O Império consciente da sua incapacidade para liderar o mundo de maneira unilateral aceitou de bom grado a soma de esforços, sempre e quando ele comandasse e regulamenta-se a regras do jogo.

Além disto, a crise dos mercados financeiros marcou um novo limite à expansão do poder conjunto do Ocidente, tanto na versão económica como na monetária; que junto a outros parâmetros estratégicos, encorajou esta política de alianças a uma revisão de posturas antes inadmissíveis. As reuniões com a Rússia para o controlo dos arsenais nucleares a escala planetária, vitais para impedir mais países engrossarem o já por si só pouco controlado clube dos países com armamento atómico, teve de ser precedida da retirada momentânea de parte dos EUA do escudo antimísseis a instalar nas barbas do urso moscovita.

Os Estados Unidos precisam agora da Rússia e da China para implementar sanções ao Irão, como passo prévio para conseguir o seu isolamento total, dado a China e a Rússia serem os únicos dous membros reticentes do Conselho Permanente das Nações Unidas.

As conversas parece que vão demorar, pois a China tem no Irão um dos sócios comerciais e estratégicos mais valorizados. O Irão proporciona ao gigante asiático 15% do fornecimento preciso para a sua indústria, tão só superado pelo petróleo proporcionado por Angola e pela Arábia Saudita. Se a China aceitar as sanções, alguém terá de substituir essa percentagem. Aliás, a China está presente em todos os grandes projetos de infraestruturas levados à frente pelo governo xiita.

É precisamente este contexto o que está a obrigar a administração americana a entrar em contradição com seu sócio predileto, o Estado de Israel, pois o mundo árabe sunita, precisa da boa vontade com o povo palestino, para poder convencer a Síria e o seu aliado o Hezbollah, de se sentarem à mesa do Médio Oriente, com o intuito de desentravar a situação atual, recebendo certos presentes em troca da sua neutralidade no caso dum isolamento ou posterior ataque ao Irão.

Por sua vez a Índia está a estreitar laços económicos e diplomáticos com a nação norte-americana como nunca se tinha visto, desde a independência da democracia mais grande do planeta.

Esta necessidade de alianças tem muito a ver com o lento mais inquestionável deslocamento hegemónico de um Ocidente que deixou de se expandir e um BRIC que começa a esticar-se.

Para aqueles que não acreditem na debilidade Ocidental podemos apontar alguns pequenos, dos muitos detalhes, que dia a dia estão a ocorrer por todo o mundo: o Japão tem-se aproximado nos últimos anos, numa viragem estratégica impensável há apenas uma década, dos seus antigos inimigos asiáticos; a dia de hoje a Coreia do Sul, o Japão e a China, junto com outros países da ASEAN vêm de criar um fundo de 120 mil milhões de dólares, que em caso de pequenos episódios de crise os faria menos dependentes dos empréstimos ocidentais via FMI.

A Coreia do Sul recentemente abriu um financiamento de 36 biliões de dólares para transportes coletivos com energia alternativa, e para inovação em infraestruturas que tem gerado perto de 960 mil empregos.

Ao tempo que a Europa contrai os seus mercados internos ante o surgimento da crise, a Ásia robustece os seus, e são as empresas indianas e chinesas que, ao invés de outros tempos, estendem os seus tentáculos pelo mundo fora. Se não, perguntem à Volvo recentemente comprada pela chinesa Geely, ou talvez à indiana Bharti, que se acaba de converter na 10 companhia teleoperadora do mundo graças aos seus contratos africanos. Ou perguntem às Corporações da Coreia do Sul, que estão a receber contratos muito lucrativos no Golfo Pérsico, em matéria de energia atómica, em detrimento de todas as poderosas firmas francesas.

Seguindo esta linha, enquanto Ocidente em conjunto não chega a uma estimativa de crescimento de 2%, o Brasil subirá dos 4,5% e Angola mais dos 8%, enquanto a China se aproxima dos 11%. Não por acaso, enquanto a Europa está mergulhada na questão de emprestar e com quê cláusulas 30 milhões de euros à Grécia, o último ato de Lula como presidente em funções, destinará o balúrdio de 600 mil milhões de dólares na melhoria de infraestruturas por todo o país, incluindo o comboio de alta velocidade Rio – São Paulo.

Muitas são as vozes que já prognosticam a expansão do BRIC ao BRICASS (Brasil, Rússia, Índia, China, Angola e África do Sul).

Daí que os galegos teremos de adequar a nossa estratégia de futuro a estes novos aconteceres que, quer queiramos quer não, nos vão igualmente influenciar em todos os âmbitos.

Então vejamos. Se o Brasil e Angola, junto com a África do Sul estão a apostar num vigoroso mercado do cone Sul, onde a China e a Índia são já um ator fundamental neste território da África; se Moçambique é a plataforma direta à Índia; talvez não estaria a mais a Galiza reafirmar-se na sua língua internacional, e dar a conhecer a estes países a realidade de esta língua comum ter nascido na antiga Gallaecia.

Se, por sua vez, o Brasil goza duma aliança privilegiada com os Estados Unidos da América, apesar das suas discrepâncias em múltiplas matérias; ao igual que goza duma aliança estratégico militar de desenvolvimento de tecnologias conjuntas, incluído a nuclear, com a França, talvez não estivesse a mais Galiza reafirmar a sua situação geográfica de ser o enlace entre o Atlântico Sul e Norte, consolidando-se na cabeça de entrada da comunicação marítima atlântica em direção à Europa.

Se não paramos de ver os cidadãos europeus desiludidos com o pouco peso da União na política internacional, causado pela falta de decisão e a parálise burocrática da União. E se todos os cidadãos europeus estamos conscientes dessa parálise ser causa das discrepâncias e desencontros dos Estados membros, talvez seja hora de dizer as cousas claras, e falar da necessidade de os Estados nações se dissolverem dentro da Europa, para potenciar um governo central com sede em Bruxelas e uma descentralização administrativa por meio das Eurorregiões, que garanta a diversidade e respeito de todas as línguas e culturas, dentro do projeto unitário.

E a ser assim, como deverá ser num futuro, se a Europa não quer cair no que muitos analistas chamam de “trágico cenário”, que levaria consigo à quebra da União, ou à sua dissolução em três grandes blocos comandados pela Grã-Bretanha, França e Alemanha; não estaríamos os galegos no momento de trabalhar com mais esforço, se for preciso, para a consolidação da nossa Eurorregião, e o potenciamento da mesma como enlace natural entre o mundo Lusófono e Anglo-saxónico?

E para tudo isto quê melhores argumentos que ser a Gallaecia, a velha Calaica, a matriz do mundo Celta, que se expandirá mais tarde por toda a Europa, logrando a primeira unidade cultural europeia da história, assim como o berço do mundo lusófono onde nasceu a formosa língua que hoje compartilhamos perto de 250 milhões de pessoas por todo o mundo?

Lembremos as sábias palavras do poeta brasileiro Mario Quintana:

“Os dias somente terão sentido se nos conduzirem em direção à Fonte”.

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