terça-feira, junho 08, 2010

O barco do retorno

Por Camilo Nogueira para vieiros:

Mas desta vez, atacando em aguas internacionais a navios procedentes de Turquia, os dirigentes israelis encabeçados por Benjamin Netanyahu aplicaram a força -um acto de pirateria como o qualificou o ministro turco de assuntos exteriores- contra o único Estado de maioria musulmana com o que mantinham relações de colaboração, mesmo de carácter militar. Um Estado que, a pouca distância da fronteira norte de Israel, desmente a pretensão de os israelis constituirem os guardas dos valores democráticos no Meio Oriente.

Provocaram a uma República que pertence à NATO e mantêm uma relação especial com EEUU. Cegados pola fanática soberbia aplicada na opresão dos palestinianos, esmagaram o trato com uma Turquia de 70 milhões de habitantes que, tendo pendente a solução da questão nacional curda num Estado com duas culturas, pretende entrar na União Européia e vive mergulhado numa acelerada modernização económica e social, com a memória não agressiva de ter sido o centro do Império Otomano que dominara em todo Meio Oriente, incluido o território actual de Israel e Palestina. Não puderam escolher um alvo pior para os seus interesses, no momento em que, mostrando a independência do seu país, o primeiro-ministro turco Recep Tayip Erdogan propiciou junto com o presidente do Brasil Lula da Silva um entendimento com o Irão (segundo Israel o seu inimigo principal) para resolver o enriquecimento de urânio para fins enérxeticos, tratando de impedir a extensão do armamento nuclear. As manifestações destes dias, especialmente em Estambul e no Diyarbakir curdo, parecem indicar que a respeito de Palestina o Governo da República Turca conta com o apoio da sociedade.

Depois do ataque em aguas internacionais nada será igual. A tolerância à atitude beligerante de Israel pode rematar, não ficando outro horizonte mas que o recoñecimento de um Estado palestino plenamente independente nas fronteiras anteriores à guerra de 1967, de acordo com as resoluções da ONU.

O caminho a percorrer estará, em todo o caso, cheio de atrancos. No Estado judeu domina a ideia do Grande Israel -para eles Judea, Samaria e Galilea- que lhes pertenceria por divina decisão, quer na forma extremista sonhando os seus partidários com a expulsão dos palestinos cara os Estados viciños, quer na estratégia orientada a debilitar a Autoridade Palestina, e também a de Hamás, para obrigá-los a rendírense e a aceitarem uma entidade estatal satélite e sem continuidade territorial num território ainda mais reduzido que o resultante da guerra de 1967. Estas visões paranoicas desdenham o facto de os milhões de palestinos que habitam tanto no interior do próprio Israel, como em Cisjordânia e em Gaza serem tantos como os israelis e muitos mais se se agregam os refugiados nos paises próximos, com a tendência a cresceren, contrastando isto com os límites inexoráveis da imigracão de judeus de outros partes do mundo. Não se pode ocultar também não que, por muito que hoje seja partilhada pola maioria dos Estados árabes ou muçulmanos, a ideia dos dous Estados tem contraditores no mundo islâmico, considerando a Israel como um Estado usurpador a derrotar.

O estabelecimento de um Estado palestino em convivência com o Estado judeu pode mesmo resultar impossível de não agir a comunidade internacional com a determinação e os meios precisos. Para solucionar um problema que sofrem os povos da região e envenena a situação mundial, pairando sobre as desgrazadas guerras do Afeganistão e Iraque, necessita-se das duas partes -resolvendo ademais os conflitos com Síria e Líbano- mas o acordo interno não se vai produzir sem uma mediação desde a ONU e com o protagonismo duradouro da UE e EEUU e também de paises como Turquia e Egipto. A mediação dos europeus será necessária porque apesar das feblezas da nossa acção internacional somos já os mais implicados na ajuda material à povoação palestina e porque no futuro seremos assim mesmo os que manteremos uma relação especial com os dous Estados mediterráneos. Também o será a intervenção dos estadounidenses, tendo em conta o seu poder objectivo e a relação particular que mantêm com os israelis, devendo estes saber que a obcecação interessada de EEUU no tratamento das questões do Meio Oriente não durará eternamente. Trata-se sobretodo de assegurar a existência de um Estado de Palestina plenamente independente, sem nenhum tipo de tutela ou submissão, garantindo ao mesmo tempo o Estado de Israel.

Não é a primeira vez que activistas comprometidos com a justiça tentam superar o bloqueio de Palestina. Também com participação galega. Em 1988 o deputado do PSG-Esquerda Galega Fernando Martínez Randulfe subiu com numerosos representantes políticos e jornalistas a um barco palestiniano da operação Retorno (Al Awda) para acompanhar a dous centos palestinos que pretendiam regressar a terra da que foram expulsos em 1967. Uma bomba colocada no barco no Chipre frustrou, como agora, a operação. A acção do deputado galego respondia a uma linha que no início da autonomia, em 1982, se expressara também numa proposta de resolução preparada para apresentar no Parlamento da Galiza por Esquerda Galega, defendendo “o direito incuestionável do povo palestino a ser dono da sua propria terra, a realizar-se em paz como nação e a decidir o seu próprio destino”ao mesmo tempo que se condenava “a constante agressão israeli” e se faziam votos “pola pronta instauração da paz e da convivência no Oriente Meio”. Mantivemo-la sempre desde Galiza, em particular desde o Parlamento Europeu e em missões a Gaza, Cisjordânia e Jerusalém, procurando parar tanto horror.

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